Charretando em Uberlândia

Muita gente diz que ações artísticas na rua estão em moda.

Na verdade, acredito que elas só retornam onde sempre estiveram e deveriam permanecer. Talvez pelos “tempos de preocupação”, cada vez mais dias, artistas do mundo todo, escolhem as ruas, calçadas e monumentos da cidade como forma de expor idéias e questionamentos que nos são atualmente tão reais quanto necessários.

Não é política (ainda mais quando nossos referenciais a respeito da política, na maioria das vezes têm valores invertidos). Mas podemos a compreender como um ato político.

Se formos olhar bem, o artista se põe ao nível de agente que expressa e participa influindo sobre a realidade que o cerca assim, cotidianamente.

Não acredito na arte como instrumento de garantir interesses nem do público, nem do privado. Todas as vezes que é assim tratada, se constrói sob uma forma intermitente ou categórica. Ela não se faz.

Por outro lado, a arte por si só, mostra que no decorrer de sua história e contexto, se constituiu como ação. Uma ação que, por quais sejam seus interesses, torna-se expressão, palavra, voz, imagem, que a partir de então pode ser encarada como “interferência”. Não gosto de julgamentos, nem classificações, mas o que seria isso senão a própria ação política?

Na mesma medida, creio que conceber a arte como ato político não seja o motivo, muito menos o DNA que daria a arte e seus artistas um patamar elevado em meio a sociedade. Menos ainda seria o motivo de dar aos artistas a responsabilidade de “guiar” nossa expressão em meio aos contextos históricos.

Não acredito que deva ser responsabilidade da arte alinhar-nos sob trilhos dentro da sociedade. Quando falamos na arte feita pelos homens, consideramos que existe uma cabeça, uma criatividade, que, envolta à percepções subjetivas e coletivas, é externalizada através da expressão artística. Nesse ponto então, a gente pode ver que apesar de não ser essa sua responsabilidade, sua existência, por si só, se constituí como participação dentro de uma sociedade, seja qual for o seu viés e sua contextualização.

Charretando:

O meio urbano do sertão tem sido local de diversas interações e o que a gente consegue ver é que a maioria das ações artísticas que vão a rua hj no contexto de Uberlândia, saem ao seu encontro, levando em sua expressão questionamentos sobre o espaço urbano, o tempo e as relações cotidianas.

Nessa semana que se passou, aconteceu na cidade o projeto do Charrete NET. O projeto foi idealizado por Gastão da Cunha Frota, professor de Artes da UFU e participante ativo do Movimento Cultura Uberlândia – MUDI; e realizado através do edital Arte Móvel Urbana da Secretaria Municipal de Cultural de Uberlândia.

Houve o convite a participação geral nas interações que a Charrete iria desenvolver em 4 bairros da periferia de Uberlândia.

Estive presente.

Sob o comando de nossos companheiros Silverado e Roberto (charreteiro), partimos logo pela manhã (madrugada fria!) de quinta (04/08) e as peregrinações se estenderam até domingo (07/08).

O Objetivo da Charrete era levar para essas localidades mais afastadas o conhecimento a respeito da interação que se pode ter hoje através dos mecanismos virtuais de comunicação e as redes sociais. Munida de um laptop, um navegador 3G, um smartphone, câmeras hd e muita energia, a intenção da charrete, era levar esses artifícios, colocando as pessoas para pensar a respeito da evolução das tecnologias digitais e de comunicação, ao mesmo tempo em que elas era abordadas através de um meio de transporte que hoje não é mais condizente com a realidade urbana em que vivemos.

Colocar as pessoas para refletirem sobre essas transformações deu grande mote à essência do projeto.

Em paralelo a isso e costurando toda a identidade do Charrete NET, aconteciam as trocas nos locais de parada da Charrete. As pessoas podiam cantar, fazer reivindicações, declamar poesias, e essas imagens seriam transmitidas em tempo real pela internet e participariam do documentário do projeto. As interações foram das mais variadas: meninos e meninas da Ong Ação Moradia que tocaram seus instrumentos, a galera da Praça Sérgio Pacheco (em frente ao terminal) que cantaram um Rap, a senhora vendedora de facas em frente ao CEASA que cantou Carmem Silva, apresentação de viola no tradicional bar do Serjão no bairro Luizote, reivindicações dos moradores que estavam sendo expulsos do assentamento em um terreno da cidade, etc.

    

Além disso, a Charrete contou com os relatos e memórias do grande Roberto (nosso guia e do Silverado) e a participação das interações de artistas locais como Jack Will, Ana Reis, Vovó Caximbó e mestre Bolinho.

Todas as pessoas por onde passávamos deram cor a ação e adornos para levarmos na charrete.

Por isso, tão interessante quanto a ação é a reação do público. Nas ruas, as pessoas a princípio olhavam desconfiadas, pareciam se sentir constrangidas em interagir. Mas logo já pediam para tirar foto junto à charrete, admiradas quanto ao fato de que logo no momento, as fotos e imagens estariam em rede mundial.

O contato, a conexão e a reverberação foram, portanto, todas as linhas que costuraram a ação.

Arte e Rua em Uberlândia:

Assim, como a Charrete Net, várias ações artísticas vêm acontecendo em Uberlândia em meio aos espaços públicos como terminais de ônibus, praças, ruas em geral. Por isso, o post aqui também ressalta efervescência de artistas como Ricardo Alvarenga, Ana Reis, Trupe Tamboril, Coletivo Teatro da Margem que buscam levar pro homem na rua, em seu cotidiano, a expressão de seus trabalhos, que apesar de variados, parecem apresentar como ponto comum a intenção de evidenciar reflexões sobre a nossa vida no asfalto “pós-moderno”.

Acredito que não é hoje nem amanhã que as pessoas irão conseguir valorar e valorizar a arte e cultura de maneira que esta não seja mais uma, deixada no leito de nossa sociedade (seja pra quem a produz ou a consome).

Se assim é feita levianamente, a distinção entre arte para elite e arte para periferia, seria se tornaria muito mais drástica. No entanto, não suponho que isso não irá e não deva acontecer. Só acredito que, antes de darmos um valor a arte, devemos (por afinidade ou necessidade) nos tornar artistas.

Nota sobre o Animal:

Algumas pessoas se indagaram sobre a integridade do Silverado. As que me indagaram diretamente, respondi que Silverado era mais um agente cultural nessa ação, que disponibilizou seu trabalho tanto quanto a gente. Nos igualamos.

Nesses dias, Silverado não puxou entulho e carroça. Carregou dessa vez outro tipo de mudança. Levou informação e oportunidade, de charrete, para um tanto de gente, que como os cavalos, no entanto, por motivos diferentes, poucos são transeuntes dos centros de vivência.

Silverado foi nosso companheiro e trabalhou junto conosco, no intuito de cada vez mais buscarmos trazer a consciência dos homens a respeito da vivência em seu ambiente. Acredito que só salvando as mentes da nossa espécie, será possível resguardar a liberdade e integridade de tantas outras.

Nos sentimos honrados por sermos liderados por Silverado. Ele nos aproximou das pessoas e as pessoas se aproximaram dele. Foi agente tanto quanto nós. Se fez vivência na ação. E isso nos garantiu um ponto a mais na busca pela consciência humana e o meio em que se encontra.

Pra quem quiser conferir mais fotos e vídeos e conhecer um pouco mais do Charrete Net é só acessar a página do Facebook ou então procurar por Charrete Net no Youtube.

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Sobre Grupo Tamboril

O Grupo Tamboril de Arte Independente é composto por artistas, comunicadores e divulgadores culturais. Por isso, o Grupo guarda como objetivo desenvolver o intercâmbio entre as ações culturais conscientes do papel da atividade artística nos dias de hoje para que assim seja ampliada a cadeia produtiva da cultura a partir das subseqüentes trocas de tecnologia social evidenciadas nesse processo. Desde as primeiras ações em 2007, na Universidade Federal de Uberlândia, o grupo ressalta a necessidade da criação de público para os artistas universitários, assim como para a perspectiva das ações de sustentabilidade econômica e social dentro do contexto em que vivemos. Assim, o Tamboril divulga os artistas não só da Universidade, mas tem como intuito divulgar e instigar a discussão sobre a proliferação de cultura independente e das iniciativas de autogestão dentro do país de maneira geral. Vislumbra-se aqui, o fato de que iniciativas culturais independentes contribuem em muito para estimular o reconhecimento das práticas econômicas criativas que se desenvolvem não só dentro da cultura, mas em meio a nossa contemporânea plataforma de organização social. Dessa forma, como mecanismos práticos, o Tamboril executa divulgações audiovisuais e virtuais, oficinas de capacitação, grupos de discussão, articulando a isso, exibições plásticas, teatrais e musicais e eventos culturais de maneira multidisciplinar. São esses os instrumentos usados pelo grupo a fim de incitar e divulgar o atrelamento que existe entre Cultura, Sustentabilidade e Desenvolvimento. Suas ações se dão dentro da Universidade Federal de Uberlândia e também fora do campus, em parceria com demais agentes e produtores envolvidos com a cena da cultura nacional e com questões atuais de sustentabilidade.
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