Sobre a Cultura. E também sobre a Política.

Começamos a falar de nossa geração.

Vinte poucos anos e uma bagagem e tanto pra levar.

Pode ser esquisito começarmos a discussão de um blog cultural falando sobre a situação que nós, pequenos, nos encontramos.

Perdidos? Não. Então de olhos abertos? Também não.

É melhor nos conformarmos com o simples fato relatado no chavão “faca e queijo na mão”.

Alguns se inundam de esperança e afirmam que o panorama que nos encontramos hoje se refere a uma sociedade pautada pelo conhecimento.

– Senta aqui que o papo é sério.

Sério mesmo que vamos reproduzir essa idéia preguiçosa e prepotente de nos declararmos frutos e reprodutores de uma sociedade do conhecimento? Sério mesmo? Do conhecimento?

Só um minuto: quantos mesmo que conhecem?

Tá certo. O Tamboril sim, é formado por universitários e essa afirmação deveria fazer parte da nossa pieguice e justificativas pomposas, tipo aquelas que colocam qualquer leigo a nosso deleite:

– Que bonito! Meninos da sociedade do conhecimento… Podem muito esses meninos! Futuro do país!

O que dá medo não é a responsabilidade, mas sim a maneira turva que esses trilhos podem tomar.

Não vivemos em sociedade do conhecimento alguma. Conhecimento é desenvolvimento e de fato, este ainda está muito longe de alcançarmos. Acha-se que conhece. Portanto, não devemos nos sentir privilegiados, muito menos instigados por esse comodismo.

Não conhecemos nada. Vivemos apenas em um lócus temporal onde prevalece um amontoado de informações (boas e más). Informação é diferente de conhecimento. Assim como este último nem sempre é prerrogativa para uma evolução positiva. É raso achar que sabemos muito quando apenas temos as cartas e inúmeras possibilidades de armarmos o jogo. Castells se descabela nessa hora.

– Se temos o “conhecimento” temos que usar! Espalhar? Talvez. Mas temos que usar enlouquecidamente porque é agora!

É agora?

Interessante é ver o quanto essa idéia de “ter conhecimento” é o primeiro passo para a instauração da autoridade e da venda nos olhos dos outros.

Quem sabe mais sobre o valor cultural e sua potência: as lavadeiras do Jequitinhonha ou os modernexes (me permitam o neologismo) dos festivais alternativos?

É o indie ou é o índio?

Isso é pergunta que se faça. Mas difícil é ser respondida.

Conhecimento é poder. Tá montado, basta ingerir, ligar a máquina. Reproduzir, reproduzir, reproduzir. Vomitar ao cheiro de óleo do motor.

Onde está a cultura e a política no meio de tudo isso?

Política é cultura. Mas o inverso não pode e não é verdadeiro. E isso não é nossa mente mediana que nos ajudou a chegar nesse insight. Vários outros brilhantes trilharam sobre essas indagações.

Política é a busca de poder e não me venha falar que não. É a busca de liderança seja qual for o mecanismo de dominação.

(deixa escorrer o academicismo e vide Weber)

Mas também fora isso, a política se estabelece na simples relação interpessoal.

Êta, mundo moderno que diversifica interesse e põe todo mundo dentro da perspectiva de fazer valer seus valores, os individuais.

Cultura é identidade. Não somente aquela tradicional, estagnada que se repassa de geração a geração. Mas hoje, é aquilo que se quer ser. Pena que às vezes nem todos podem ser. Nem todos sabem ser.

A política tem muito a aprender com a cultura, com sua manifestação identitária, formuladora de valores que devem ser largamente aceitos dentro de um contexto democrático. No entanto, creio que ao contrário, a cultura de nada pode e de nada deve aprender com a política que temos hoje. É de dar dó ver a descontextualização cultural pela qual passa seus próprios atores. É simples enaltecer os fatos e evidenciar a importância que cultura teria dentro do campo político para o desenvolvimento sócio-econômico de um país. Qualquer verborragia basta para vender essa idéia. No entanto, como se concretiza tais vicissitudes em um país aonde os cidadãos nem sequer conhecem as políticas culturais integrantes da constituição, nem sequer conhecem a constituição, nem sequer conhecem a democracia?

Como estabelecer a cultura dentro de um sistema onde os valores adquirem poder ao serem mais ou menos interessantes (para o bem comum ou individual), uma vez que a própria cultura, por si só, não admite a valoração nem autoridade advinda do processo?

Colocar a cultura para ditar os homens é nobre. É lindo. É nosso sonho e meta. Mas deixaremos essas balas para serem usadas mais tarde.

Antes, trabalharemos com a cultura para que esta ajude a acender lâmpadas.

As lâmpadas iluminam livros, os espetáculos, as oportunidades e as mentes, para que estas realmente sintam e entendam, antes de tudo isso, o valor da cultura.

Pois isso tudo é para nós muito claro.

Para nós.

foto e texto: B. Zanon
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Sobre Grupo Tamboril

O Grupo Tamboril de Arte Independente é composto por artistas, comunicadores e divulgadores culturais. Por isso, o Grupo guarda como objetivo desenvolver o intercâmbio entre as ações culturais conscientes do papel da atividade artística nos dias de hoje para que assim seja ampliada a cadeia produtiva da cultura a partir das subseqüentes trocas de tecnologia social evidenciadas nesse processo. Desde as primeiras ações em 2007, na Universidade Federal de Uberlândia, o grupo ressalta a necessidade da criação de público para os artistas universitários, assim como para a perspectiva das ações de sustentabilidade econômica e social dentro do contexto em que vivemos. Assim, o Tamboril divulga os artistas não só da Universidade, mas tem como intuito divulgar e instigar a discussão sobre a proliferação de cultura independente e das iniciativas de autogestão dentro do país de maneira geral. Vislumbra-se aqui, o fato de que iniciativas culturais independentes contribuem em muito para estimular o reconhecimento das práticas econômicas criativas que se desenvolvem não só dentro da cultura, mas em meio a nossa contemporânea plataforma de organização social. Dessa forma, como mecanismos práticos, o Tamboril executa divulgações audiovisuais e virtuais, oficinas de capacitação, grupos de discussão, articulando a isso, exibições plásticas, teatrais e musicais e eventos culturais de maneira multidisciplinar. São esses os instrumentos usados pelo grupo a fim de incitar e divulgar o atrelamento que existe entre Cultura, Sustentabilidade e Desenvolvimento. Suas ações se dão dentro da Universidade Federal de Uberlândia e também fora do campus, em parceria com demais agentes e produtores envolvidos com a cena da cultura nacional e com questões atuais de sustentabilidade.
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